O
ESTORINHADOR MIA COUTO. A POÉTICA DA DIVERSIDADE
Conversa com o escritor moçambicano no Funchal
22 de Abril de 2002 - Madeira, Portugal
RESUMO
Esta entrevista ao escritor moçambicano Mia Couto inscreve-se
no âmbito da investigação de doutoramento em literatura
comparada que visa analisar as poéticas da Alteridade na ficção
de Edouard Glissant e Mia Couto. O autor reflecte sobre os riscos
do pensamento hegemónico, a diversidade cultural moçambicana,
a lusofonia, a sua concepção da literatura e o seus
projectos de trabalho interdisciplinar onde a antropologia e a linguística
se aliam à biologia.
RESUMÉ
Cet entretien réalisé à l'écrivain mozambicain
Mia Couto s'inscrit dans une recherche de doctorat en littérature
comparée dont le but d'est analyser les poétiques de
l 'Altérité dans la fiction d'Edouard Glissant et Mia
Couto. L'écrivain réfléchit sur les risques de
la pensée hégémonique, la diversité culturelle
de son pays, la lusophonie, sa conception de la littérature
et ses projets interdisciplinaires qui mettent en relation l'anthropologie,
la linguistique et la biologie.
É
preciso entrar em estado de palavra
Manoel de Barros, Retratos do Artista
enquanto coisa
O
senhor me ouve, pensa e repensa, e rediz, então me ajuda. Assim,
é como conto.
Guimarães Rosa, Grande Sertão Veredas
Foi
em pleno florescer dos jacarandás, época de festa primaveril
no Funchal, que tive a oportunidade de dialogar com Mia Couto. Esta conversa
inscreve-se num projecto de investigação de doutoramento
em literatura comparada que visa analisar as poéticas da Alteridade
na ficção de Edouard Glissant e Mia Couto, cruzando, deste
modo, olhares entre a francofonia e a lusofonia. Tal como Glissant que
reflecte sobre a alienação cultural antilhana desde Le
Discours Antillais (1980) até Introduction à
une Poétique du Divers (1994), Mia Couto recusa o pensamento
hegemónico, desmascara alienações e cria estórias
que resgatam o imaginário ancestral moçambicano profundamente
enraizado na oralidade. Leitor de Guimarães Rosa e Manoel de Barros,
o autor tornou-se um "escutador" de vozes e silêncios da terceira
margem onde as dicotomias sonho/realidade, vida/morte, ficção/história
perdem sentido, dando vida a uma outra ordem lógica.
Sua mansa voz teceu considerações sobre sua infância
na Beira, suas influências literárias, a busca da magia da
poesia, os perigos da adopção de modelos exógenos,
o projecto de investigação ambiental que se cruza com a
antropologia, assim como o seu interesse pela representação
teatral. No fluir deste diálogo, é significativo destacar
que só se alcança o Moçambique profundo, se tivermos
acesso aos diferentes cruzamentos culturais que configuram o complexo
traçado do país, formado por diversos esboços de
nação em flagrante invenção de si,
em constante busca da sua moçambicanidade. A obra do escritor busca
dar um certo rosto ao seu país, dividido entre o mito e a história.
O autor sugeriu ainda a urgência de criar uma nova pedagogia que
possa se adequar à diversidade multicultural da sua terra a fim
de evitar desfasamentos. Relativamente à questão polémica
da lusofonia, postula a necessidade da partilha de imaginários
e o namoro da língua portuguesa com as línguas de origem
bantu que atravessam a sua terra sonhambulante.
C.
M. - Viveu a sua infância e parte da sua adolescência
na Beira, espaço onde as culturas europeia, africana e indiana
permaneciam distanciadas por questões racistas durante o período
da colonização portuguesa. Sendo filho de emigrantes portugueses,
como entrou em contacto com o Moçambique profundo ? Quem foram
os seus guias nessa descoberta da outra margem?
MIA
COUTO -
Primeiro, a Beira era uma cidade muito particular, porque existia esse
estigma da divisão racial, se calhar era o lugar de Moçambique
onde essa hierarquia espacial por raças era mais evidente. Segundo,
a Beira era também um pântano, essa arrumação
espacial não foi plenamente conseguida. A Beira acabou por ser
até à Independência, uma cidade misturada onde essas
margens dos territórios negros, brancos e das outras raças
se entrecruzavam. E por circunstâncias da minha vida, vivi nessa
margem, os outros estavam do outro lado da rua : os indianos, os pretos,
os mulatos chineses - que só existiam na Beira. Isso me ajudou
a encontrar a mestiçagem.
Por outro lado, os meus pais tinham adoptado um menino mais velho, João
Joãquinho. Vivia dentro da nossa casa: era um menino negro cujos
pais tinham-no entregue para ser educado pelos meus pais. Era praticamente
um irmão. A África estava ali dentro de casa por causa desse
menino, e também fora de casa, na rua, lugar de encontro com os
outros. Não diria que conheci um Moçambique profundo, mas
vivi esses vários Moçambiques e a maneira como se entrecruzam.
Eu questiono essa noção de profundo, porque só
se alcança esse Moçambique profundo a partir da leitura
desses cruzamentos possíveis, que não são apenas
cruzamentos de raças, mas entre culturas diferentes, de culturas
africanas de diversas etnias. A Beira era também uma cidade onde
havia imigração de muitas outras etnias o que favoreceu
uma situação de mestiçagem plural.
C.M. - Em que perspectiva era ensinada a literatura
na escola?
MIA
COUTO - Eram só ensinados os escritores portugueses. Considero
que o modelo de ensino era copiado do padrão português com
os mesmos defeitos que tinham em Portugal naquela altura. Ficávamos
odiando colectivamente Camões, Almeida Garret, Herculano.
C.M. - Define-se como um contrabandista entre Europa e África,
Ocidente e Oriente. Esse posicionamento implica uma constante errância
entre escrita e oralidade. Não será uma posição
privilegiada?
MIA COUTO - Sim. Retomando a primeira resposta, nasci numa circunstância
particular que me permitiu, sem esforço, como algo natural, entrar
em contacto com esses cruzamentos culturais. Sou um europeu que tenta
fazer uma viagem adentrando-se noutro espaço. Sou ponto de chegada
e de partida, um ser de fronteiras, situado entre vários territórios.
C. M. - Já referiu, em outras entrevistas,
a importância dos poetas Fernando Pessoa, Sophia de Mello Breyner
Andresen e Eugénio de Andrade e dos brasileiros Manuel Bandeira,
João Cabral de Melo Neto e Manoel de Barros, como a poesia influenciou
o seu trabalho?
MIA COUTO - A poesia é filosofia. É um
modo diverso de explicar o mundo.
C.M. - Qual é a sua relação com a palavra?
MIA COUTO - A
busca de uma certa música. Eu sou um músico frustrado.
C.M.
- Desde a publicação de Vozes Anoitecidas,
a crítica considera-o um dos ficcionistas mais significativos da
geração pós-independência. Contudo, ao ler
detidamente os seus contos e romances descobre-se o fulgor e o delírio
da poesia. Não será que a prosa e a poesia são irmãs
siamesas para si?
MIA COUTO - Eu venho da poesia. O meu primeiro livro, Raiz de Orvalho,
era um conjunto de poemas. Comecei, portanto, por escrever poesia
e depois penso que nunca deixei de ser poeta no sentido de traduzir o
sentido mágico da palavra e, ainda hoje, considero que estou escrevendo
histórias de forma poética. Também creio que a poesia
pode ajudar no trabalho de transgressão que eu quero fazer. Porque
a realidade que eu quero revelar é uma realidade que só
pode ser contada através de certo sentido mágico e de certa
transgressão de fronteiras, entre o verso e a prosa, a escrita
e a oralidade. E a poesia ajuda a fazer essa desmontagem.
C.M.
- Em "O Secreto namoro de Deolinda" (Cronicando) representa
a alienação de um marxistianista. Em "A Viúva
Nacional " (Contos do Nascer da Terra) desmascaras o artifício
do herói revolucionário. Em que medida o marxismo leninismo
resultou ser um projecto falhado na sociedade moçambicana?
MIA COUTO - Penso que o que falhou nesse projecto não foi tanto
um falhanço político, mas um fracasso cultural, não
se questionou que os fundamentos dessa prática política
foram pensados e construídos num outro contexto. Portanto falhou
o modelo marxista, como vai falhar o modelo capitalista, porque não
se consideram as características próprias, as dinâmicas
sociais de Moçambique. Julgo que neste sentido não há
que tirar dividendos políticos disto, vão falhar todos os
modelos exógenos.
C.M. - Li algumas das suas crónicas da secção
"Imaginadâncias" do diário Domingo. Estabeleci nexos
com o seu livro Cronicando. Tentou neste texto criar uma fusão
da estória e da crónica jornalística, uma
síntese entre oralidade e escrita. Tentou criar um novo género?
MIA
COUTO - Antes de mim, já houve essa fusão. Acredito
que não criei nada novo. O que eu aprendi foi por mim próprio
a chegar lá, porque eu era um jornalista e os modelos de conceber
e fazer comunicação preocupavam-me. Acreditava que era preciso
questionar aquilo tudo e verifiquei que em Moçambique muitas vezes
se contam notícias contando histórias. Eu pensei que provavelmente
isso me ajudaria no momento em que eu estava a deixar de ser jornalista.
Ao abandonar a actividade jornalística, estava consciente de que
queria manter um certo laço com a oralidade, eu queria encontrar
outros caminhos para a transmissão de informação
em Moçambique.
C.M. - Cito, agora, três contos em que a transcendência
do conflito surge como fio estruturador. Na "Princesa Russa" (Cada
Homem é uma Raça), reescreve o mito do andrógino:
no fim, as leves pegadas do pé feminino de Nádia substituem
o pé coxo do negro Duarte Fortin. Em "Lágrimas para irmãos
siameses" (Contos do Nascer da Terra) a rivalidade entre os siameses
resolve-se graças ao amor de Marineusa cujas lágrimas siamesas
entreliga-os como um colar. O mesmo motivo reaparece no conto "A
viagem da cozinheira lagrimosa": Felizminha tempera com lágrimas
a comida do seu patrão solitário, porque sente saudades
da sua terra. Um dia, em sinal de agradecimento, o português convida-a
a viajar até sua ansiada aldeia. Apesar do caos, da miséria
física e moral que minam o seu país, concorda que a sua
escrita é uma demanda de utopia?
MIA COUTO - Se calhar a resposta esteja nessa condição
caótica e de miséria, o sonho torna-se a saída, a
resposta. Às vezes, se procura entender que é uma atitude
especificamente africana, mas julgo que é um aspecto da condição
humana em que a colectividade tem a urgência de responder através
de uma utopia quando se confronta com situações limite.
C. M. - É verdade que o conto "As Baleias de Quissico" (Vozes
Anoitecidas) foi baseado num facto real?
MIA COUTO - É
uma lenda que é muito comum nas zonas litorais. A baleia é
sempre vista como um animal mítico e generoso, é um animal
que dá. Em algumas zonas, ela se encosta, aborda a praia, e ali
ela se oferece. As pessoas chegam e servem-se, cortando pedaços.
Noutras zonas, se pode encomendar, ela sempre traz alguma coisa.
C. M. - Mas, no fim do conto há uma ambigüidade em
virtude da alusão aos submarinos?
MIA COUTO -
Neste sentido, como escritor, situo-me noutra fronteira. Não tenho
que acreditar na lenda, posso adoptar outro ponto de vista.
C.M.
- A sua apropriação da lenda permite diferentes níveis
de leitura?
MIA COUTO - Sim, exactamente para mostrar que existem várias
dimensões de uma mesma realidade.
C.M. - Por vezes, o leitor tem a impressão de que cada romance
é um conto que se desenvolveu. Como constrói a intriga das
suas narrativas mais longas?
MIA COUTO - Não tenho um método. Sou um bocado caótico,
mas agora acabei um romance: parto sempre de uma sugestão e depois
essa sugestão faz nascer personagens. São as personagens
que pedem que haja uma história e essa história é
interligada de maneira a criar um fio condutor.
C.M. - A colonização deixou como herança a
divisão de dois Moçambiques, o litoral e o interior que
ainda hoje não se entendem. Em que medida a literatura poderia
ser fermento de futuro diálogo?
MIA COUTO - Eu
acredito que sim. Mas não a literatura sozinha, todas as outras
artes podem ajudar a que estes dois mundos pelo menos comecem a falar,
se entendam na base do mútuo conhecimento. Considero que o que
os outros escritores africanos e eu estamos fazendo é sugerir a
esse Outro que não há razão para ter medo, porque
essas culturas temem-se porque se desconhecem. Este é o drama que
cada vez está mais patente: há universos em Moçambique
incapazes de se relacionar, um deles tem uma certa prática hegemónica,
o que está mais próximo da realidade europeia, esses podem
reproduzir o modelo de fazer política, fazer cultura. Esses representantes
impõem-se aos Outros como se fossem delegados da globalização,
a sucursal da modernização. Isto provoca um choque entre
culturas que não querem perder a sua identidade. Uma das raízes
da violência é o desconhecimento, embora a literatura não
tenha força sozinha, ela pode ser uma porta, essa ponte entre esses
universos distanciados.
C. M. - Desenvolve o tema da intrusão dos meios de comunicação
no universo tradicional nas suas narrativas e nalgumas anedotas partilhadas
em encontros culturais. O choque parece derivar mais de visões
diferenciadas do mundo do que da novidade tecnológica. Seria este
um problema que se coloca em todas as comunidades que fazem irrupção
na modernidade, como Moçambique?
MIA COUTO - Sim, creio que sim. Esse encontro de culturas é
sempre, em princípio, traumático, porque não se trata
de um encontro, é uma incursão abusiva. O que chega a estas
culturas africanas não são as culturas europeias. São
emanações, representações simbólicas
por via da tecnologia. Mantemos ainda a imagem dos primeiros encontros
dos descobridores europeus que trocavam umas bugigangas que reluziam
diante dos olhos dos africanos. Estamos mais ou menos repetindo esse modelo
de relação. Não existe globalização,
o que existe é exportação e imposição
de sinais, nem sequer são modelos, o modelo fica junto do produtor,
os africanos consomem passivamente aqueles sinais mais brilhantes e apelativos.
C.M.
- Existe uma certa urgência em fixar a essência de
Moçambique. Na Europa, as notícias tendem a divulgar imagens
parcializadas. Por um lado, vende-se a imagem de um país martirizado
pelos conflitos bélicos, as cheias e a recente onda de violência.
Por outro, vende-se a imagem de um país como exemplo de excepção
em África, já que Moçambique conseguiu corresponder
a algumas expectativas no plano económico. Em 1999, apercebi-me
da existência de duas ilhas diferentes: Maputo e Inhambane,
e estava consciente de que havia muitas outras por descobrir. Poderíamos,
portanto, falar de uma certa opacidade do país como um imenso e
denso mosaico multicultural impossível de definir em categorias
rígidas e cuja investigação pressupõe uma
continua busca?
MIA COUTO - A pergunta já revela uma resposta. Não
existe nenhuma maneira de fixar o retrato, de enfocar a diversidade do
país Moçambique, o importante é o cruzamento de diversas
realidades. O que é curioso é que eu, tal como as gerações
anteriores de escritores, somos mais velhos que o nosso próprio
país: nos temos trinta, quarenta, cinquenta anos e o nosso país
tem apenas vinte e poucos anos. Isso implica um certo sentimento épico:
nos estamos ajudando a dar um certo rosto a este país.
C.M.- É arriscado falar de literatura moçambicana
agora?
MIA COUTO - Retomando a resposta anterior, não creio
que não haja uma coisa que se possa chamar de Moçambique,
há um retrato sem moldura, mas esse retrato pode ser definido,
há traços comuns que permitem estabelecer uma certa identidade.
Seria difícil dizer que um escritor angolano não caberia
no mesmo projecto literário. Trata-se de uma literatura que está
sendo feita.
C. M. - Considera que os moçambicanos estão pouco
a pouco devorando a língua portuguesa sem complexos? Poderia,
por favor, citar exemplos de como o povo imprime ao português a
cosmovisão telúrica?
MIA COUTO - Os moçambicanos estão operando
sobre a língua portuguesa uma mudança muito livre e descomplexada.
Esta reapropriação cria um outro problema: o português
ocupou uma posição hegemónica, que poderá
conduzir à extinção de certas línguas nativas.
Não existe em Moçambique um princípio estabelecido
do ponto de vista institucional e conceptual que permita que estas línguas
diferentes convivam e se entreajudem. Por exemplo, a utilização
do gerúndio, alguma coisa se está fazendo no sentido
da percepção de uma dinâmica. As construções
da forma passiva eu fui batido, eu fui dado...
C.M.- Não é uma influência do inglês?
MIA COUTO - Não vem do inglês. É um fenómeno
que creio provém das línguas indígenas. É
uma espécie de tradução literal. Outro exemplo: o
carro dormiu fora, isto é, não foi posto na garagem.
Esta coisa que o carro dorme, é uma animação particular
do objecto. Se me perguntarem se este jornal já não é
de hoje, já ouvi dizer este jornal não trabalha,
o que uma forma muito feliz, porque os jornais trabalham.
C.M. - Em que medida o projecto da(s) lusofonia(s) poderia ser
frutífero?
MIA COUTO - Esse é o tema da minha conferência de
amanhã. Poderia ser frutífero se fosse realmente um encontro
de desejos e seria frutífero se esta adopção da língua
portuguesa como língua oficial não fosse feita à
custa das outras línguas. O que falta é dar visibilidade
a isto, e encará-lo não como um problema, mas como uma realidade.
São países que têm múltiplas línguas,
não se pode descartar estas línguas de um modo fácil
apenas por uma decisão administrativa. A língua portuguesa
tem que saber casar, tem que ajudar as outras línguas a sobreviver.
A ideia primária de que o português em Moçambique
e Angola só poderá se fixar, marginalizando as outras é
uma ideia incorrecta desde o ponto de vista da lógica da adopção
do português nos países africanos.
C.M. - É a ideia postulada por Glissant a urgência
de viver o imaginário de todas as línguas.
MIA COUTO - Sem dúvida, não se pode fazer de outra maneira.
Já se estão criando movimentos de contestação,
que seriam completamente desnecessários se houvesse uma política
mais realista e que respeitasse essas diferentes entidades linguísticas.
C.M.- Como biólogo, o que aprende nas incursões no
mato, nesses contactos com a lógica da ruralidade?
MIA COUTO - O
que eu aprendo é desaprender: apetece colocar em causa aquilo que
são as minhas certezas, não para adquirir outras certezas,
não é isso. O que me apetece é a viagem, escutar
já é uma aprendizagem. Por causa do nosso tipo de vida acelerada,
nós somos convidados a deixar de escutar. Portanto, ter atenção
às falas, aos silêncios, às pausas é também
uma forma de aprendizagem.
C. M. - No âmbito da sua empresa IMPACTO - Projectos e
Estudos Ambientais, já coordenou o levantamento de mitos e
lendas na gestão tradicional dos recursos naturais da Ilha de Inhaca.
Trata-se de um trabalho interdisciplinar que articula a biologia, a antropologia,
estreitando os laços entre a sabedoria científica e o universo
do conhecimento tradicional, ameaçado pelo esquecimento, constituindo
uma preciosa referência para os estudiosos da cosmovisão
moçambicana. Que outros projectos desalienantes urge iniciar no
contexto actual da sociedade moçambicana ?
MIA COUTO - Nós somos uma empresa privada e pequena que não
tem fundos. Nós estamos a cativar fundos de doadores de países
para privilegiarem a pesquisa, quer dizer, não podemos fazer tudo
sozinhos. Já estabelecemos contacto com países europeus
que estão disponíveis para a criação de um
fundo que servirá de apoio à investigação,
permitindo um trabalho entre várias margens: cultura, biologia,
antropologia, sociologia e linguistica de modo a mostrar que a relação
entre cultura e saber pode produzir projectos positivos.
C.M. - O problema da tradução é encenado em
O Último Voo do Flamingo. O italiano Massimo Risi fala português,
mas não capta a cultura. Já referiu que não existem
os termos «cultura» e «futuro» em algumas línguas...
MIA COUTO - Também não existe em português
uma série de palavras que existem nas línguas locais, por
exemplo, os nomes que se dão às relações de
parentesco, não existe equivalente em português. Eu estive
agora num encontro com os camponeses de uma região onde se vai
criar um parque internacional. Então o que eu reparei é
que o tradutor quando traduzia a palavra camponês não
era capaz de encontrar um equivalente na língua local (changana).
Ele recorria à palavra pessoa. Não conhecia nenhum
termo que exprimisse o facto de ser camponês. Naquela língua
não há urbanos, todos são camponeses, trabalhar a
terra não é um traço distintivo, ninguém é
urbano. Existem vários casos de desentendimento em que as pessoas
não estão somente a falar uma língua, estão
a veicular conceitos, maneiras de estar, maneiras de ser. Por exemplo,
em várias das culturas moçambicanas, se conta na base de
5 e o ensino oficial não reflecte essa particularidade, ela é
invisível. Eu imagino uma grande maioria que conta na base de 5,
estes indivíduos, segundos alguns estudos recentes, têm que
fazer uma tradução numérica. Eles contam na base
de 5 e depois reconvertem na base de 10.
C.M. - O Teatro Meridional já encenou A Varanda do Frangipani.
Em Maio de 2001, houve outra produção da mesma equipa, baseada
na sua novela "Mar me quer" no âmbito do Festival Mediterrâneo
(s) da Culturgest. Tem investido no teatro, como por exemplo, a peça
"Xicalamidades" do grupo Mutumbela Gogo. Qual é a sua relação
com a representação teatral? É também um outro
elo com a oralidade?
MIA COUTO - Eu estou ligado a um projecto da companhia Mutumbela Gogo,
que já tem dez ou doze anos. Trabalho com eles, como se aquilo
fosse uma escola. Numa certa altura, perguntei-me como eu aprendo a escrever,
não há escola. Para mim, o teatro foi uma escola que me
permitiu o confronto com o Outro, constatar a receptividade que a mensagem
literária cria e como é encarada por aquilo que nós
designamos erradamente de público.
C.M. - Em todo o país que ainda vive enraizado na oralidade,
a leitura dos antropólogos é uma fonte de conhecimento para
os escritores. Além do célebre estudo de Henri Junod - Usos
e Costumes dos Bantu, que outras leituras contribuíram para
o seu projecto de desocultação das vozes anoitecidas?
MIA COUTO - Li o trabalho de José Fialho Feliciano, Antropologia
económica dos Thonga do Sul de Moçambique. Já
li o ensaísta da Universidade de Harvard Kwame Anthony Appiah,
o seu livro intitula-se In My Father's House: Africa in the Philosophy
of Culture. Actualmente estou a ler Uma boca cheia de vidros
do holandês Henk Van Woerden.
C. M. - Já leu alguma obra de Edouard Glissant?
MIA COUTO - Conheci-o num encontro no Brasil. Mas até hoje,
não tive oportunidade de ler nada, mas gostaria muito de conhecer
a sua escrita.
C.
M. - O seu último romance será publicado em Setembro
deste ano. É possível desvendar algum segredo?
MIA
COUTO - O título do romance é longo. Um rio chamado
tempo, uma casa chamada terra. Trata-se da história de um jovem
que vai assistir ao funeral do avô na ilha de onde é natural.
É, no fundo, a história do jovem com esse mundo fantástico
em que a morte passa a ser uma realidade fugidia.
C.M. - A ilha da Madeira poderia ser um lugar de inspiração
para uma estória?
MIA COUTO - A Madeira é um lugar onde eu gostaria de viver.
Mas se fosse conduzido a viver fora de Moçambique, esse novo lugar
não seria o lugar do meu espaço de criação.
Estou condenado a escrever sempre naquele universo que é o mundo
onde nasci e vivi. Provavelmente levarei esse lugar comigo, como a baleia
que busca a costa, estou condenado a escrever sobre o meu país.
Até agora, nunca escrevi uma linha que não fosse sobre aquele
espaço afectivo que eu imagino ser Moçambique.
* * *
Não
há fim, tudo é um perpétuo recomeçar.
Celina
Martins é
assistente de Literatura Comparada e Literatura Francesa no Departamento
de Estudos Romanísticos, Universidade da Madeira (Funchal. Madeira,
Portugal). Prepara actualmente uma dissertação de doutoramento
subordinada ao tema: As Poéticas da Alteridade
na ficção de Edouard Glissant e Mia Couto, sob a orientação
da Profª Doutora Lilian Pestre de Almeida, Universidade Independente,
Lisboa, Portugal.
E-mail: celinamar@clix.pt
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