O conceito de linguagem em Bakhtin

Luis Filipe Ribeiro
Universidade Federal Fluminense


Resumo:

Este artigo, na verdade uma conferência para alunos de Letras, tenta fazer entender, de forma didática, os conceitos fundamentais, através dos quais Mikhail Bakhtin aborda a difícil problemática filosófica da linguagem humana.



Indagar-se sobre os conceitos na obra de Mikhail Bakhtin é sempre um desafio, pois sabe-se que aí está tudo em movimento permanente e não há terreno sólido para as construções formais. Mesmo porque, se há alguma coisa que caracterize o seu pensamento, essa alguma coisa é uma adesão inconteste à filosofia do movimento. Nada é, em sua obra, definitivo, nada está estabelecido permanentemente, tudo oscila com as alterações do quadro histórico, em que as ações humanas se desenrolam.

Minha proposta, hoje, é tentar alinhavar em linhas gerais como seu pensamento trabalha com a linguagem.

Este é um terreno minado, pelas muitas teorias e filosofias que dele se ocuparam. Mas, tanto melhor, pois será do diálogo de tantas vozes discordantes que poderá surgir uma possibilidade de entendimento desse fenômeno que é absolutamente central tanto na vida social, como na nossa existência pessoal.

Talvez, uma primeira aproximação possa ser feita pela comparação do seu pensamento com o de Ferdinand de Saussure, fundador da lingüística tradicional. Este, ao aproximar-se do fenômeno da linguagem, assim se expressa:

Mas, o que é a língua? Para nós ela não se confunde com a linguagem, ela é apenas uma parte dela, essencial, é verdade. É, ao mesmo tempo, um produto social da faculdade da linguagem e um conjunto de convenções necessárias, adotadas pelo corpo social para possibilitar o exercício de tal faculdade pelos indivíduos. Considerada em sua totalidade, a linguagem é multiforme e heteróclita; cavalgando sobre diferentes domínios, ao mesmo tempo físico, fisiológico e psíquico, ela pertence ainda ao domínio individual e ao domínio social; ela não se deixa classificar em nenhuma categoria dos fatos humanos, e é por isso que não sabemos como determinar sua unidade.

A língua, ao contrário, é um todo em si mesmo e um princípio de classificação. Uma vez que nos lhe atribuímos o primeiro lugar entre os fatos da linguagem, introduzimos uma ordem natural num conjunto que não se presta a nenhuma outra classificação.1

O lingüista genebrino faz um movimento epistemológico, no mínimo curioso. Primeiro admite que a linguagem é diferente da língua, que ele define como o objeto de estudo da lingüística. A língua é uma parte apenas da linguagem que ele admite ser muito mais ampla que a primeira. Logo, a lingüística não tem como objeto de estudo a linguagem humana, mas uma parte dela.

De outra parte, ao afirmar que a língua é um “produto social da faculdade da linguagem e um conjunto de convenções necessárias, adotadas pelo corpo social para possibilitar o exercício de tal faculdade pelos indivíduos”, Saussure está nos dizendo que a língua é apenas um instrumento que possibilita o exercício da linguagem pelos indivíduos, ademais de ser um conjunto de convenções. Trocando em miúdos, a língua não pode ser confundida com o uso da linguagem humana. Até porque o nosso lingüista vai afirmar, também, que

a linguagem é multiforme e heteróclita; cavalgando sobre diferentes domínios, ao mesmo tempo físico, fisiológico e psíquico, ela pertence ainda ao domínio individual e ao domínio social; ela não se deixa classificar em nenhuma categoria dos fatos humanos, e é por isso que não sabemos como determinar sua unidade.

Ou seja, Saussure descarta a possibilidade de um conhecimento científico da linguagem humana e, em função disto, determina que se estude apenas o seu aparato técnico. É um pouco como dizer que “já que não posso entender sistematicamente a música, vou estudar o tocador de cds”.

Isto, em absoluto, não desqualifica a estudo da lingüística que, de todo modo, é fundamental. Apenas sublinha claramente que ela não foi construída para entender a linguagem humana, mas seu instrumental técnico, a língua. Isto explica porque o campo da semântica sempre foi o irmão mais pobre em estudos e em bibliografia lingüísticas. Exatamente porque ele aponta para a única coisa que fica realmente fora da língua, ou seja, o mundo. Um clarividente lingüista americano, Edward Sapir, afirmou, com propriedade, que a semântica não pertencia à lingüística, mas à antropologia. Num gesto que marca bem claramente o problema que estamos tentando desenhar.

O estudo da língua é fundamental, sem ele não avançamos muito no campo da linguagem; mas, por outro lado, é insuficiente, se nosso objetivo é conhecer o exercício efetivo da fala em sociedade.

A partir daí, o mais é decorrência deste movimento fundador básico. Para Saussure, além da linguagem e da língua, existe ainda a fala. A linguagem é incognoscível; a língua é o estudo dos signos e das suas regras de combinação; a fala é o mero exercício individual dentro dos limites da língua e, igualmente, é descartada como objeto de estudo da lingüística. Ou seja, nem a linguagem — fenômeno social por excelência —; nem a fala — o exercício pessoal da linguagem — podem ser estudados pela lingüística. Ela vai dedicar-se inteiramente ao estudo do instrumental que nos possibilita a fala. Para entender melhor tal afirmação — e uso aqui uma gratificante experiência com meu filho caçula de um ano e três meses de idade — uma criança que ainda não fala, nem por isso deixa de possuir linguagem. Ela se comunica, expressa seus desejos, manifesta seus desagrados, busca seus objetivos práticos no dia-a-dia. Mas ela ainda não fala. E não fala porque não domina totalmente o instrumental técnico que é a língua. Não a usa como emissor, mas a entende perfeitamente como receptor. Ou seja, dela tem um domínio parcial, com ela se orienta no mundo, mas não lhe conhece as manhas e as produções vocais, que há de aprender por imitação direta dos falantes que a cercam. Mas não se pode dizer que não tenha linguagem. E, voltando atrás no seu tempo de vida, antes mesmo de que pudesse entender a língua falada, já tinha uma linguagem, com a qual se ia inserindo no mundo adulto e agindo sobre ele. Não têm os pais que aprender a identificar diferentes tipos de choro de um bebê, para poder atendê-lo, quando é o caso, e desatendê-lo, quando não?

Isto pode tornar os limites entre os nossos dois teóricos — Saussure e Bakhtin — mais claros e mais palatáveis. Ou seja, torná-los acessíveis ao maior número. Pois se há uma coisa de que quero afastar-me é de uma universidade vem desaprendendo gradualmente a falar claro e em língua de gente.

Bakhtin — que é o objeto de minha exposição nesta mesa — situa-se quase como antípoda de Saussure e, por isso, nós que o estudamos, não o vemos como um lingüista, mas como um filósofo da linguagem. E por que? Porque, para ser lingüista ele teria que aceitar as premissas da lingüística traçadas por Saussure, o que ele absolutamente não aceita. Quase contemporâneo de Saussure, Bakhtin critica duramente os fundamentos de sua concepção teórica ao longo de sua obra, mas com especial atenção em Marxismo e Filosofia da Linguagem.

E qual é, basicamente, sua proposta teórica?

Bakhtin pretende, no fundamental, entender o exercício da linguagem humana por parte dos indivíduos. Ele escolhe a música e não o CdPlayer, por difícil que seja o caminho a desbravar. O que Saussure excluiu do estudo da lingüística é exatamente o que atrai as atenções de Bakhtin.

Para ele o único objeto real e material de que dispomos para entender o fenômeno da linguagem humana é o exercício da fala em sociedade. A língua falada, nas casas e nas feiras, na rua e na igreja, no quartel e na repartição, no baile e no bordel, é sempre o que existe de materialmente palpável para o estudo. Para ele, a língua — que Saussure considera o objeto da lingüística — não passa de um modelo abstrato, construído pelo teórico a partir da linguagem viva a real. Coerentemente Saussure afirmava que “não é o objeto que precede o ponto de vista, mas é o ponto de vista que cria o objeto”. No caso da lingüística é exatamente o que ocorre: o seu objeto é criado a partir do ponto de vista de que a linguagem humana não pode ser objeto de conhecimento científico, assim como o exercício da fala.

Para entender um pouco mais a fundo tal diferença, é necessário remontar às origens filosóficas de cada um deles. Saussure surge em cena, durante a onda ascendente do positivismo, que balizava, de forma muito ampla, a produção da ciência ocidental. E o método por excelência do positivismo é o quantitativo. Só é real e material aquilo que pode ser medido, pesado, tocado, manipulado. Era uma forma de contrapor-se às teses escolásticas e metafísicas que constituíram, durante séculos, o cenário do pensamento no Ocidente.

Já Bakhtin surge na cena científica, na Rússia Soviética nascente e em que o marxismo, na sua leitura leninista e stalinista, constituía o único pensamento aceitável. Bakhtin se defronta, então, com dois problemas ao mesmo tempo. De um lado, pensar o marxismo com Marx e não com o Partido Comunista; de outro, discutir o modelo ocidental, positivista por excelência. Sua saída foi buscar apoio em uma erudição literária invejável e um conhecimento filosófico sofisticado. A erudição literária ofereceu-lhe um contacto privilegiado com a linguagem humana real e o conhecimento filosófico uma vacina eficaz contra as simplificações positivistas seja do marxismo oficial, seja da ciência que se fazia no Ocidente. Sua escolha foi decididamente por uma filosofia do movimento, que vem de Heráclito aos nossos dias. E, esta opção pelo movimento, afasta-o decididamente das filosofias da forma, que trabalham com um mundo pronto, acabado e congelado em formas imutáveis, cuja origem remonta a Platão com o seu mundo das idéias, fora do tempo e fora do espaço.

Bakhtin trabalha com um mundo em movimento e em perene transformação, seu objeto está sempre em processo, não se submete a uma forma fixa e imutável.

E é exatamente por isso que ele não pode aceitar que uma língua seja um conjunto de formas (signos) e suas regras de combinação (sintaxe). Para Saussure, um signo é uma relação entre um significante (um som, uma imagem acústica ou um grafema) e um significado (um conceito). Para Bakhtin, o significado é uma impossibilidade teórica. Um signo, aceitando-o provisoriamente, não tem um significado, mas receberá tantas significações quantas forem as situações reais em que venha a ser usado por usuários social e historicamente localizados. Em uso, a língua é muito diferente do seu modelo teórico. Para a lingüística um signo tem um significado. Sabemos entretanto que, ao falar, nós estamos diariamente modificando, acrescentando, excluindo, torcendo os significados codificados pela língua.

Mas, muito mais do que isto, para Bakhtin, já que se trata de linguagem e não de língua, a unidade básica não pode ser o signo, mas o enunciado. Um enunciado não é um signo pela simples razão de que para existir ele exige a presença de um enunciador (quem fala, quem escreve) e de um receptor (quem ouve, quem lê). O signo faz parte de uma construção teórica que dispensa os sujeitos reais do discurso. Um signo, num dicionário, não é e não pode ser um enunciado. Este exige uma realização histórica. Um enunciado acontece em um determinado local e em um tempo determinado, é produzido por um sujeito histórico e recebido por outro. Cada enunciado é único e irrepetível. A mesma frase, exatamente a mesma, pronunciada em situações sociais diferentes, ainda que pelo mesmo enunciador, não constitui um mesmo enunciado e não pode constituir. Imaginem que, daqui a algumas horas, eu leia este mesmo texto, palavra a palavra, na Estação Rodoviária de Campos, para um público que não esperava ouvir-me. Será o mesmo texto, mas seguramente não o mesmo enunciado. Aqui, leio uma palestra para um público que, presumivelmente (eu espero!), deseja ouvir-me dissertar sobre as questões da linguagem num teórico de nome estrangeiro e complicado. Lá, as pessoas estarão possivelmente esperando as chamadas para as suas viagens e sem nenhum interesse pelas coisas que eu venha a dizer. Tudo o que conseguirei é uma fama de maluco, maior do que a já carrego, por ser professor universitário nesse nosso triste país.

O enunciado não é um conceito meramente formal; um enunciado é sempre um acontecimento. Ele demanda uma situação histórica definida, atores sociais plenamente identificados, o compartilhamento de uma mesma cultura e o estabelecimento necessário de um diálogo. Todo enunciado demanda outro a que responde ou outro que o responderá. Ninguém cria um enunciado sem que seja para ser respondido. Mesmo isto que eu agora leio, ainda que não venha a receber respostas exteriorizadas, por certo as provocará interiormente e, desde já, esboço as minhas réplicas neste diálogo sem fim.

Como se vê, cada enunciado é um ato histórico novo e irrepetível. E é este enunciado a unidade básica do conceito de linguagem de Bakhtin. Toda linguagem só existe num complexíssimo sistema de diálogos, que nunca se interrompe. Ao decidir falar sobre este tema, nesta mesa, retomei meu já longo diálogo com Mikhail Bakhtin; mas com Paulo Bezerra, meu amigo dileto e tradutor da sua obra; mas com minhas experiências ao lidar com a linguagem, antes de conhecer a obra de Bakhtin; mas com outros textos que venho escrevendo e lendo ao longo de uma vida de estudos. Tudo isto está aqui, neste enunciado que, neste momento, centraliza o diálogo com essa coleção tão ampla de outros enunciados.

Mas, para que adquira consistência histórica e possa acontecer, este enunciado que agora leio precisou, primeiro, dialogar com um público ainda virtual, no momento em que foi escrito, e, agora, dialogar, ao vivo e em cores, com vocês, seus receptores reais. Dá para perceber que não estou me referindo a apenas um enunciado, mas a, pelo menos, dois. Quando, no meu escritório em minha casa do Rio de Janeiro, dialogava com um público virtual — que é o único de que disponho agora quando escrevo — produzia um enunciado. Agora, quando leio este texto — que, para o escritor que está escrevendo, “esse agora” é futuro —, dialogando com um público real (e seguramente diferente do que poderia imaginar quando escrevia), produzo outro enunciado, ainda quando o texto seja exatamente o mesmo (pelo menos até esta frase, pois não posso ainda saber das futuras que chegarão a seu turno).

Mas, notem bem, para poder escrever o que escrevo tenho que construir um receptor muito definido. Sei que vou falar na UENF, em Campos, para um público universitário ligado preferencialmente à área de Comunicação, com a presença inteligente e vigilante do Mário Galvão — companheiro de tantas jornadas de vida —, possivelmente com a presença de colegas da área que estarão conferindo os meus possíveis desvios de rota e assim por diante. Sem construir esta imagem de enunciatário, não teria como escrever, pois só os chupadores de nuvens são capazes de escrever para ninguém. Pois mesmo os solilóquios dos momentos de crise e solidão pessoal são feitos para um enunciatário que construímos, que é um outro eu, capaz de sentir peninha de mim mesmo.

Mas, para poder escrever o que escrevo, tenho que construir uma imagem de mim mesmo, uma imagem de autor. Tenho que avaliar que expectativa depositam em mim, que imagem construíram desse senhor que vem de fora para lhes falar. Tenho que me perguntar se já leram algum de meus textos, se já tinham referências prévias ou se serei um completo desconhecido. Ou seja, quem lhes escreve também teve que se construir como escritor, para que o diálogo pudesse se estabelecer. Mas, assim como o púbico real não há de coincidir com aquele que imaginei previamente, por outro lado, quem escreve neste momento não é a mesma pessoa que será daqui a quatro dias, quando deverá estar lendo o que agora escreve. O enunciador de hoje não será o mesmo que lerá o texto no dia 1º. No mínimo estará quatro dias mais velho, o que, no meu caso, já constitui um sério problema...

Serão enunciados diferentes, unidades de análise distintas.

Por outro lado, todo diálogo — ou seja, todo enunciado — além de um enunciador e de um enunciatário ou receptor, demanda a presença daquilo que Bakhtin denominou de o terceiro do diálogo. É que todo diálogo (ou todo discurso) sempre pressupõe alguém diante de quem se dialoga. Posso supor, neste momento e neste diálogo, que o terceiro, para mim, possa ser o próprio Bakhtin (ou seja, a imagem que tenho dele, pois não sou espírita), que me olha preocupado com o que ando a fazer com suas idéias, ou mesmo seu representante mais autorizado nesta mesa, meu amigo Paulo Bezerra. É com a responsabilidade de não lhe ser muito infiel que falo diante dessa imagem de Bakhtin que, de alguma forma, baliza meu discurso. Ele constitui o terceiro diante de quem em falo. Mas, este é apenas o meu “terceiro”. Para quem me ouve, os terceiros poderão e deverão variar. Imagino, por exemplo, um leitor desses problemas que discorde do pensamento que tento expor aqui. Ele, seguramente, me ouvirá com as orelhas do espírito afiadíssimas pelas suas convicções filosóficas, buscando os argumentos para me contradizer. O seu “terceiro” será constituído por essas mesmas convicções. Já um outro, leitor de Bakhtin que com ele possa concordar, estará me ouvindo tendo como “terceiro” a sua imagem de Bakhtin e estará atentíssimo, buscando concordâncias que o satisfaçam e registrando discordâncias que o conduzirão ao diálogo.

Resumindo, sempre construímos um enunciado a partir de uma referência axiológica, um conjunto de valores que, paradoxalmente, darão consistência ao que dizemos e estarão vigiando a nossa adequação ou não às propostas que dizemos defender. Este conjunto de valores constituirão a imagem do “terceiro do diálogo”. É por isso que ele pode ser representado por uma imagem de autor, por uma autoridade, religiosa ou laica, por uma ideologia, por entidades como classe, história, destino e quejandos.

Ou seja, falamos sempre diante de alguém ou de algo que acreditamos respeitar. E, mesmo quando falamos contra alguém, o fazemos diante de alguém ou algo que supomos concordar com nossa avaliação. É o terceiro que nos ampara e nos vigia, na difícil tarefa de entender o mundo e os nossos semelhantes.

Dando um passo adiante, na construção do enunciado, pode-se observar que existem duas dimensões distintas e complementares: de uma lado, existe a materialidade técnica do texto e, de outro, aquilo que escapa aos limites de língua, para ascender ao plano da linguagem. Nas palavras do próprio Bakhtin:

Portanto, por trás de cada texto está o sistema da linguagem. A esse sistema correspondem no texto tudo o que Ž é repetido e reproduzido e tudo que pode ser repetido e reproduzido, tudo o que pode ser dado fora de tal texto (o dado). Concomitantemente, porŽém, cada texto (como enunciado) Žé algo individual, único e singular, e nisso reside todo o seu sentido (a sua intenção em prol da qual ele foi criado). É aquilo que nele tem relação com a verdade, com a bondade, com a beleza, com a história.2

Vemos assim que aquilo que diz respeito à língua é o que é repetível, o que é recorrente, o que é reprodutível. O que, enfim, não tem identidade própria. Os fonemas (ou as letras na linguagem escrita), os significantes, a sintaxe, enfim, os signos e sus regras de combinação, na linguagem de Saussure. As mesmas palavras podem participar de enunciados diferentes, as mesmas figuras de retórica, uma mesma construção sintática. Tudo isto fica no domínio da língua, do aparato técnico da linguagem. Mas o que efetivamente identifica um enunciado é aquilo que ele efetivamente diz, naquele momento, para aquele enunciatário, nas condições específicas em que é produzido e recebido. Assim, uma única e mesma palavra dicionarizada — repetível, portanto — pode participar de enunciados diferentes. Basta que mudem as condições de sua enunciação. O clássico exemplo da palavra “fogo”. Se pronunciada pelo comandante de um batalhão de fuzilamento para os seus comandados, diante de um condenado atado ao muro de execuções, constituirá um enunciado completamente diferente, do que enunciada por um fumante aflito, com um cigarro apagado na mão, dirigindo-se a um possível possuidor de fósforos ou isqueiro. Ou, um passeante noturno solitário, flagrando um princípio de incêndio e dirigindo-se a quem quer possa prestar auxílio na emergência. O que se repete é a palavra e esta pertence ao plano da língua. O irrepetível em cada caso é a situação que confere a essa mesma palavra significações tão distintas em cada um dos enunciados.

Mas para que esta construção de enunciados possa ser realizada, há que levar em consideração um outro fenômeno extremamente rico de possibilidades. É a distinção que Bakhtin vai estabelecer entre tema e significação. Aqui, igualmente, pertence à significação aquilo que é repetível, reiterável e que portanto se situa no plano da língua. O conjunto de palavras de um dicionário está nesta situação: elas apresentam uma significação que é socialmente compartilhável e que garantem à língua a sua continuidade e à comunicação a sua possibilidade. Já o tema é único em cada enunciado, corresponde a uma significação global daquele enunciado e inclui uma série de elementos que, além de não pertencer à língua, podem inclusive ser não-verbais. Aqui, nesta minha fala, meus gestos, minha entonação, as pausas que faço, as expressões faciais que assumo, minha forma de falar e de vestir, tudo se inclui no conjunto do tema do enunciado. Um tema não pode ser nunca exaustivamente delimitado e não se repete de uma enunciação a outra.

Assim, num enunciado estaremos diante de uma permanente dialética entre as significações, já cristalizadas, e o tema, a cada vez outro. Na verdade há uma luta permanente entre o velho e o novo a cada enunciado que pronunciamos. O velho são as significações que herdamos ao aprender a falar uma língua e ao longo de seu exercício social. O novo, aquilo que cada situação de enunciação apresenta de novidade e de ato histórico original. Posso assim afirmar, sem medo de erro, que vocês nunca leram duas vezes o mesmo livro. Se o livro, materialmente, é o mesmo, o leitor e a situação de leitura não podem sê-lo. Numa segunda leitura, o leitor é um leitor que já conta com a experiência da primeira leitura, entre uma e outra sua vida e suas convicções podem e devem ter mudado, e o livro para ele é um livro que ele já conhece e de que tem uma primeira leitura e, logo, não é o mesmo livro.

Este exemplo reafirma a questão do tema e da significação. O livro, enquanto objeto material, está dotado de um conjunto de palavras cuja significação me imprescindível, ou quase, conhecer para que a leitura seja possível. E aí estamos no plano da língua, no plano da significação. Mas, sabemos todos, por óbvio, que conhecer cada uma das palavras de um livro não significa havê-lo entendido. A leitura não é um acúmulo de significações buscadas num dicionário. Se assim fosse, eu ignorante do Alemão, com a ajuda de um bom dicionário e com uma boa dose de disciplina germânica, poderia ler o Fausto de Goethe, no original. E, mais que isso, um computador, igualmente amparado em um bom dicionário da Língua Russa, dispensaria o meu fraterno amigo Paulo Bezerra da tarefa hercúlea de traduzir Dostoiévski.

Não. A leitura é adentrar de cabeça no tema e não ficar catando milho nos dicionários, escritos ou não. Ler é tentar entender, recriando-as, as circunstâncias em que o livro foi pensado e escrito; é adentrar pelas possibilidades culturais da época; é comparar a sociedade em que o livro foi escrito com aquela em que ele é lido; é construir um mundo imaginário equivalente àquele que habitou o escritor antes, durante e depois da escrita. E tudo isto constitui o tema deste grande enunciado que é um livro. Se não o alcançarmos, a leitura se frustra e se torna um exercício maçante de decodificação de palavras.

Creio que com estas pinceladas, rápidas e superficiais, se possa fazer uma idéia, ainda que pálida, de alguns dos conceitos chaves com que Mikhail Mikhailovitch Bakhtin tenta pensar a questão da linguagem. Seria inviável, no limite de uma palestra, tentar esgotar um assunto que ele não conseguiu esgotar numa longa e produtiva existência pessoal e intelectual.

Apenas pretendi trazer algum ordenamento e alguma organização às idéias mais gerais desse pensador genial que, com o riso e o carnaval, com a galhofa e os destronamentos, tentou nos mostrar que a linguagem, como tudo o que é humano, é sempre muito mais complexo do que pretende a arrogância intelectual do saber acadêmico.

Para finalizar, bastaria lembrar que a sua tese de doutoramento — A Obra de François Rabelais: a Cultura Popular na Idade Média e no Renascimento — foi recusada pela Academia de Ciências da União Soviética. Para alguém que sempre pensou na contra-mão dos discursos oficiais, que valorizou a cultura popular, que resgatou a força da oralidade, que valorizou o riso como forma de denúncia, foi realmente uma sorte. Se a Academia de Ciências da União Soviética o houvesse aprovado como doutor, isto hoje poderia comprometer a força irreverente e devastadora de seu pensamento radicalmente revolucionário.

Rio de Janeiro, 27 a 29 de novembro de 2006.

Notas:

1 Saussure, Ferdinand de - Cours de Linguistique Générale. Paris:Payot, 1966. P. 25

2 Bakhtin. Mikhail. Estética da Criação Verbal. Tradução de Paulo Bezerra, edição eletrônica.


Luis Filipe Ribeiro é mestre em Letras e Doutor em História, professor da Universidade Federal Fluminense, autor de Mulheres de Papel: um estudo do imaginário em José de Alencar e Machado de Assis, Niterói: Eduff, 1996.
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